BIOGRAFIA

O HOMEM, O ESCRITOR

ESBOÇO DE RETRATO

João de Araújo Correia nasceu em Canelas do Douro, na Casa da Fonte, na madrugada de 1 de Janeiro de 1899.
Muito cedo desce à Régua para frequentar a escola e alargar os seus estudos para além dos primários. O estabelecimento escolar situava-se na Rua de Medreiros, onde viveu em criança e veio, mais tarde, a fixar residência e a abrir consultório médico, que manteve para toda a vida. A longa vivência nesta rua da Régua possibilitou-lhe interessante matéria transposta a muitas das suas crónicas.

Depois da instrução primária feita na Régua, conclui a 5.ª classe e exames singulares de inglês e francês em Vila Real (1912). Seguidamente, na Escola Académica do Porto, completa, em três anos, o Curso dos Liceus. João de Araújo Correia, com dezasseis anos de idade, entra para a Escola Médica do Porto, mas, por falta de saúde, vê-se forçado a interromper os estudos ao fim de três anos de proveitosa frequência. Leva seis anos a restabelecer-se, em Canelas do Douro. Durante todo esse tempo, muito se cultivou, lendo, reflectindo, observando o povo e a natureza. Regressado à Faculdade, conclui a licenciatura em Outubro de 1927. Em Março de 1928, abre consultório na Régua, onde passa a exercer clínica geral até poucos meses antes do falecimento, ocorrido no último dia do ano de 1985. Foi médico de pobres e ricos, na Régua e por terras e Quintas desgarradas das redondezas.
Educou cinco filhos, com a sua magra bolsa de médico. Contudo, não pôde ser o viajante que sempre sonhou. Conheceu Portugal até às ínfimas aldeias, muita Espanha e alguma França.

O seu primeiro estudo publicado — Linguagem Médica Popular Usada no Alto Douro — (1938) revela bem quanto, desde cedo, se encontraram o médico, o escritor, e o estudioso da língua portuguesa. E, desde então, jamais se viram separados. O médico, sempre tão íntimo do próximo, levava ao escritor as mais diversas figuras do teatro da vida real, recortadas num cenário de drama e de comédia. Além disso, sempre, sempre, a língua portuguesa vigilante das suas falas e dos seus escritos.
De esmerada educação e agradável convívio, João de Araújo Correia, no entanto, não perdia nunca um certo ar distante. Talvez esse aspecto da sua atitude pessoal o tenha ajudado a seleccionar amigos e relações.
Grande epistológrafo, manteve correspondência com distintas personalidades do seu tempo. No espólio do escritor podem ser encontradas cartas de Egas Moniz, Irene Lisboa, Ricardo Jorge, Júlio Brandão, Agostinho de Campos, Júlio Dantas, Aquilino Ribeiro, Fidelino de Figueiredo, Joaquim de Carvalho, Norton de Matos, Gago Coutinho, Pina de Morais, Leite de Vasconcelos, Abade de Baçal, António Sérgio, Adelino Mendes, Monteiro Ramalho, D. João de Castro, Oliveira de Guimarães, Abel Salazar, Vieira da Costa, Carlos de Passos e tantos, tantos outros não menos ilustres.
Além das paixões que teve pela Medicina, pela Literatura e pela Língua portuguesa, João de Araújo Correia foi um apaixonado pelas árvores. Por todas. Chegava a desviar a sua rota do dia-a-dia para ir visitar uma velha árvore, sua conhecida de há muitos anos.
Mesmo em esboço, um retrato de João de Araújo Correia ficaria muito incompleto sem o traço que define o seu profundo sentimento de família. Com o sacrifício da sua magra e generosa bolsa de clínico geral, protegeu os pais e as irmãs até ao fim das suas vidas e deu um curso a cada um dos cinco filhos, segundo as suas vocações pessoais.

É, aliás, no respeito pela sua condição de clínico geral em terra de gente pobre, que João de Araújo Correia escreve o Depoimento de João Semana sobre a vida clínica de aldeia – uma conferência que fez no Clube Fenianos Portuenses, na noite de 21 de Outubro de 1944. Aí, ao seu jeito, com simples mas enormes palavras, assumindo uma humildade capaz de criar silêncios, João de Araújo Correia como que redige e apresenta o seu tributo de cumplicidade à profissão com que custeou a sua vida familiar e literária.

«Homem pensativo, homem solitário, que sociedade seria a minha, se não fosse médico? Nenhuma. Encerrar-me-ia numa torre e veria passar na terra, através das frestas, o ansioso tropel dos meus irmãos. Não conheceria a Comédia Humana. Como médico, parece-me que a conheço, porque o médico entra à caixa de todos os teatros. (…) Sou médico. Tenho ramo à porta como símbolo de tirania. Não me deixa comer a horas certas, nem me deixa dormir a sono solto. (…) O escritor perdoa ao clínico os dias e as noites que lhe rouba.»

É talvez desta simbiose, entre o médico, o escritor e o homem, que nasce o contista transversal e universal, passível de ser lido por todos, porventura de todas as idades, porque pela sua literatura passam de facto todos os personagens da tal comédia humana.

CRONOLOGIA

1899 - Nasce na Casa da Fonte, em Canelas do Douro, concelho de Peso da Régua. Filho de António da Silva Correia, solicitador, e da sua segunda mulher, Maria Emilia de Araújo, e irmão de Amélia e Maria Ana

1910 - Conclui o ensino primário, que havia frequentado na vila de Peso da Régua, através de prova de exame feita na Escola Normal de Vila Real

1912 - Faz exames de Francês e Inglês (quinta classe) no Liceu de Vila Real

1918 - Freqeunta o terceiro ano de Medicina e adoece gravemente, sendo obrigado a abandornar o curso durante seis anos. Passou esses anos de convalescença em Canelas durante os quais aproveita para aprofundar a sua cultura e publicar crónicas e poesia nos jornais da Régua

1935 - Funda, com dois amigos, a empresa "Imprensa do Douro"

1986 - Em reunião de 3 de Junho, a Câmara Municipal de Peso da Régua delibera atribuir o nome de João de Araújo Correia a uma das ruas da cidade.

1999 - Comemora-se o centenário do nascimento do escritor. O município de Peso da Régua patrocina a edição da antologia de contos, novelas e crónicas de João de Araújo Correia intitulada O Mestre de Nós Todos. Amigos, admiradores e entidades autárquicas erguem-lhe uma estátua na Avenida do Douro, à entrada da cidade da Régua, da autoria do escultor Laureano Ribatua, inaugurada pelo Presidente da República, Jorge Sampaio